segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Força Extraordinária Brasileira

 Força Extraordinária Brasileira,

uma história de Milagres vivos na segunda guerra mundial.



Ler e escrever eu aprendi cedo, na base da vara e do carinho de minha falecida tia Dalva, ela tinha os olhos de uma santa e as mãos pesadas como pedra, mas a gramática e a tabuada eu jamais esquecerei. E é justamente por isso, porque sei escrever e ler é que coloco aqui essas palavras. Espero que alguém as leia num futuro não muito distante.


Já fazia mais de quatro meses que havíamos chegado à Itália. O que mais me contrariava de estar ali era o gelo, a neve. Eu nasci no Goiás, não fui criado para suportar esse frio todo não. Os primeiros dias lá, apesar de tudo ser totalmente diferente do que eu conhecia, eram de uma sensação de férias estranhas. Estávamos em um país estrangeiro, com um povo diferente do nosso, paisagem estonteante e paramentados para enfrentarmos um inimigo que tinha experiência na guerra. Antes dessa, qual foi a última guerra que o Brasil participou? Eu nem sei. O brasileiro não gosta de matar ninguém não. O brasileiro gosta de samba, gosta de viola, gosta de música, isso sim o brasileiro gosta. E mesmo naquele lugar carregado pelo medo e tiros de metralhadora, nós trazíamos conosco a musicalidade de nossa terra. Eu gostava muito era de tocar viola e cantar sobre passarinho, contudo ali, eu estava preparado para tocar fuzil e morteiros de 60mm. Quando eu falo “preparado”, significa que eu estava lá, em meu grupamento, vestido a caráter e de fuzil na mão. Mas não tenho vergonha nenhuma em dizer que meu coração encontrava-se em solo goiano, junto de minha mãe, meu pai, meus irmãos mais novos e Lucinha, a quem sempre guardei um carinho enorme, e que Deus permitirá que eu volte pra casa e possa casar com ela.


Depois daqueles dias iniciais a coisa que já não era boa descarrilou de vez. Estávamos sob o comando do capitão Ayrosa chegamos a Pisa e de lá rumamos imediatamente para uma pequena cidade chamada Massarossa, que estava sob controle alemão. Ali vi a guerra em sua plenitude. Trazer aquelas imagens me torna pesaroso e de pensamento embargado. Atirar e matar quem a gente não vê e quem a gente nunca odiou não é algo que me veio fácil. E observe que estávamos sob a chuva de morteiros inimigos e uma quantidade enorme de granadas. As explosões nos deixavam tontos, fazia com que perdêssemos o equilíbrio enquanto avançávamos pelas ruelas estreitas e de pedra daquela cidadota. Foi ali mesmo, naquele dia de batalha, que vi pela primeira vez um Milagre. Claro que havia histórias sobre eles. Claro que conhecíamos até alguns nomes, trocados como segredos de crianças, mas nada te prepara para o espetáculo único que é ver um Milagre em ação!


Precisávamos pegar o controle de uma rua que estava bloqueada pro destroços e uma forte barricada. Havia uma metralhadora que cuspia forte em nossa direção, mas mesmo assim avançávamos sistematicamente, pouco a pouco. Eu, Vicente e Toledo ficamos entocados entre uma meia parede e uma área aberta. Atiramos em direção daquela arma, que mais tarde todos nós chamaríamos de lurdinha, tentávamos acertar algo. Eu mesmo era bom de tiro, cacei desde a mais tenra idade junto com o senhor Pedro, meu pai, mas caçar um caititu numa grota é totalmente diferente de atirar em um outro ser humano. Os tiros da metralhadora vinham em nossa direção, às vezes a gente apenas colocava a arma para fora e atirava a esmo. O meu coração, e tenho certeza de que os corações de meus companheiros também, se apertava cada vez mais, pois o tínhamos certeza que a parede não aguentaria muito tempo como proteção. E nosso temor interno tornou-se realidade. Os tiros não paravam e castigavam a parede, tentando nos calar e a parede começou a cair sobre nós três. Travei a respiração naquele momento, sabia que a coisa não seria bonita. Vicente levou as mãos à cabeça e Toledo se jogou no chão, mas a parede não chegou a cair. Três pilares feitos de alguma gosma esverdeada sustentou a meia parede antes que ela nos esmagasse. Era uma coisa que nunca tinha visto antes em minha vida. Então ouvi algumas ordens vindas de meu sargento e aqueles pilares carregaram a parede e a fez se mover. Usamos aquilo como proteção, mesmo com toda a estranheza. Toledo arremessou uma granada com uma maestria que poucos podem ter e acertou a toca da lurdinha. Ela calou na hora. A parede caiu e se desmanchou totalmente ao tocar o solo. Olhei para trás, assim que nos asseguramos que não haveria tiro em nossa direção e vi um soldado com uniforme americano, de olhos verdes intensos, recolhendo aquela gosma toda através de seus olhos, ouvidos, nariz e boca. Vicente jurava que aquilo era a alma do americano que saiu de seu corpo e nos salvou.


Aquilo foi um Milagre, não havia dúvidas. Se havia esse tipo de dom divino do lado dos aliados, não havia como os tedescos ganharem essa guerra. Mais tarde fiquei sabendo que o nome daquele americano era cabo Christopher Lewis, conhecido entre os seus como Border, O Fronteira. Soube também que ele morreu na Alemanha, vítima de um tiro certeiro do inimigo. Mesmo os Milagres podiam morrer.


Os nosso a gente chamava de Milagres, do lado deles a gente chamava de Diabos. Os Diabos tedescos.


Depois dos combates em Massarossa a maior parte dos pracinhas rumou para uma cidade chamada Camaiore, onde dizem que batalhas terríveis e violentas entre nossos bravos homens e os tedescos se deram. Não havia dúvida da capacidade brasileira na guerra, aquela cidade foi liberada das forças alemãs. Todavia um destacamento menor, mesmo assim com bastante equipamento, homens, munição e provisões rumou para mais ao norte, bem mais adentro do território controlado pelos fascistas. Eu estava entre esses homens. Na guerra o soldado deve agir como um mecanismo de precisão dentro de uma enorme máquina e fizemos isso. Rumamos para o norte. Quem nos capitaneava era o Capitão Lívio Brotas um homem severo em suas feições, mas de grande visão tática e uma liderança grandiosa. Segui-lo em combate não era um fardo, era uma honra. Por dez dias marchamos direto ao coração do território inimigo, houve pequenas escaramuças e nossas noites não traziam quase nenhum descanso. As noites cada vez mais frias e os dias cada vez mais brancos tornavam nosso avanço demorado e penoso. Todos reclamavam, alguns apenas com um olhar de desaprovação, tentando se lembrar de nossa pátria quente e querida, outros ousavam levantar a voz um pouco além, contudo ninguém desistia ou questionava as ordens recebidas.


Foi então, na manhã congelante do décimo dia de nossa partida de Massarossa que vimos nosso objetivo.


Era uma elevação, com uma casa em seu cume, ao redor dessa elevação havia uma densa e desfolhada floresta, repleta de armadilhas naturais e provavelmente outras feitas pelos inimigos. Havíamos chegado ao que um homem da região, que auxiliava o capitão Lívio, chamava de Monte Lacrimoso, pois havia uma linda cachoeira do lado oposto, nos meses sem neve. Para nós ele era a colina 97. Um lugar longe de qualquer apoio aliado ou linha de provisão. Estávamos sozinhos. Nos perguntávamos se haveria apoio de nossos rapazes da FAB, se eles colocariam seus ovos nos ninhos dos tedescos, mas tudo o que observamos no céu cinzento eram aviões alemães.


Ao nos aproximarmos da construção no alto do monte, fomos pegos em uma chuva de morteiros de 80 milímetros!


Nós agimos de forma sorrateira, mas acabamos em uma situação muito mais próxima da morte do que da vida. Alguns correram morro acima, outros morro abaixo. Não apenas havíamos perdido o elemento surpresa, era muito pior, fomos nós os pegos como ratos em uma ratoeira.


Ouvi o tenente Moraes ordenar a seus homens que recuassem. O mesmo foi dito pelo tenente Viriato Correia.


Estávamos perdidos e perplexos. O barulho dos tiros de metralhadora não cessavam. Os morteiros caíam e os gritos dos feridos já se ouvia com força. Segurei meu rifle com a mão direita, apoiei meu capacete com a esquerda e tentei descer rápido, sendo obviamente atrapalhado por aquela neve toda.


Olhei para a esquerda e vi um três tedescos próximos de uns nove ou dez dos nossos. Retirei a mão do capacete e segurei firme o rifle. Minha intenção era alvejar aqueles malditos. O tiro foi certeiro em um deles. E justamente por eu ter certeza de que acertei é que os acontecimentos posteriores foram muito mais assombrosos. Simplesmente o alemão não caiu. Ele gritou em minha direção, como se nada tivesse acontecido, mas eu via os tiros de outros de meus compatriotas acertarem aquele homem. Um vulto passou rápido, era como se alguém corresse muito mais veloz do que os olhos pudessem acompanhar. Ele simplesmente passava próximo de nossos soldados e vários deles caiam com cortes. Era impossível fixar mira naquele alvo em movimento sobrenatural! Atirávamos a esmo, tentando achar uma forma de escaparmos daquela tortura. Foi então que ouvi o grito de Gervásio, um praça que ingressou no mesmo dia que eu. Era um grito que trazia algo muito além da dor. Vi um alemão pegá-lo pelo braço e misturá-lo a uma árvore. Não sei como descrever de outra forma. O alemão pegou o Gervásio, que perdeu o equilíbrio indo e encontro a uma árvore e então ele não bateu no tronco, ele começou a atravessar o tronco, como se a madeira fosse feita de fumaça e de súbito Gervásio e a árvore eram um só. E ele estava vivo.


Depois daquilo não lembro de muito mais coisas. Sei que consegui descer, com os demônios tedescos em meu encalço, com o barulhos das lurdinhas costurando em nossa direção e o ensurdecedor som dos morteiros caindo muito próximos.


Nos reagrupamos no pé da colina 97 e montamos acampamento. Meu coração estava tão acelerado que imaginei que ele fosse abrir caminho para fora de meu peito e eu sabia que não poderia fazer nada para impedir.


Não havia lágrimas em meu rosto, mas não tem como eu dizer que não existia um enorme pavor plantado em minha alma. Tudo que consegui fazer, enquanto obedecia cegamente às ordens de meus superiores, era rezar, na esperança de que aquele mal todo fugisse de minha mente e nunca mais voltasse.


Eu gostaria muito de dizer que naquela noite o silêncio havia imperado, mas os malditos tedescos forçaram suas explosões de forma constante. No acampamento não produzíamos o menor som sequer, nem mesmo os oficiais.


Por três dias nós tentamos tomar o 97, mas assim que colocávamos os pés para fora de um perímetro já observado, de imediato os tiros e os morteiros cantavam. Não houve mais tantos feridos, e nenhum novo morto nesses três dias, mas não conseguíamos imaginar uma forma de avançar um centímetro sequer.


O frio já fazia parte de nossos corpos e mesmo naquela desolação da alma alguns já começavam a esboçar uma retomada da sanidade. Vez ou outra já escutávamos um assobio ritmado acolá, um murmúrio cantarolado mais adiante e aquilo fez nossas almas lentamente retornarem a um estado de atenção e um mínimo de harmonia. Todos ali éramos brasileiros e não iríamos desistir nem de nosso objetivo nem de nosso espírito como povo.


Foi então, no sexto dia desde que chegamos ao monte lacrimoso que o capitão Lívio nos informou que um grupo de Milagres estava a caminho para nos ajudar a subir e vencer aquela batalha. Um certo alívio nos acometeu.


Enquanto esperávamos esses Milagres, conversávamos sobre essa nova capacidade do ser humano.


Eles nos disseram que o primeiro Milagre que apareceu foi um alemão, que voava, parecia um anjo sem asas. Voou, pairou perante todo um estádio e o mundo ficou boquiaberto, isso lá pelos idos de 36, mas eu não acredito muito nisso não. Quero dizer, eu acredito que o alemão voou sim, mas não creio que ele tenha sido o primeiro. Meu avô conta uma história de quando ele tinha mais ou menos minha idade agora, quando ele andava lá pelos lados de Corumbá, um pouco antes de roubar a vó Vina da casa dela, uma vez ele se engraçou com uma moça casada e o marido da mulher foi tirar satisfação com ele e o pegou desprevenido em um bar. O marido então enfiou uma faca de quase doze polegadas na barriga do velho Xito, na altura do umbigo. Meu avô disse que todas as vezes em que a ponta da faca tocava seu corpo, uma pedra nascia na barriga e expulsava a lâmina. O homem insistiu três vezes em empurrar aquela arma para dentro de meu avô e nas três vezes ela foi rechaçada. Ele não conta exatamente o que aconteceu depois, só que o marido fugiu e nunca mais foi visto em Corumbá nem por perto. Ele nunca comentou sobre ter revidado nem nada. Eu mesmo nunca perguntei. Sempre que contava essa história ele levantava a camisa e mostrando para os netos. A gente olhava atento, bem de perto, e até tocava três pontas de pedra, como pequenos diamantes, perto do umbigo do velho, que ria alto e exagerado. Certamente meu avô era um Milagre muito antes do alemão voador, ele só não voava.


No oitavo dia eles chegaram.


Olhando para eles não consegui imaginar nada que os tornassem especialmente diferentes de qualquer outro pracinha que estava ali. Era um tenente, dois sargentos e dois soldados. Não havia insígnias ou marcas em seus uniformes que os diferenciassem dos uniformes que nós mesmos usávamos, apenas que estavam mais limpos, mais novos.


Foram direto falar com o capitão. O que conversaram eu não sei, mas um dos sargentos acabou soltando entre um gole e outro de pinga, que o capitão havia pedido 16 Milagres, que haviam enviado 12 e que um dos aviões onde eles estavam havia sido abatido, sobrando apenas esses cinco. Eu não quis me desmoralizar ainda mais. Tinha comigo que um Milagre era bem melhor do que nenhum e eu sabia que os tedescos tinham pelo menos quatro demônios lá em cima.


Os Milagres tentaram se enturmar conosco, principalmente um dos soldados, mas quando ele se aproximava, pelo menos metade da conversa desaparecia.


Foi Licurgo, um mato-grossense pequeno e forte como um boi quem primeiro perguntou: “e aí, dói?” e olhou para os olhos do recém-chegado. Ninguém se segurou e todos riram daquela pergunta. O soldado foi simpático e respondeu com calma, enquanto enchia a caneca com um destilado que nós mesmos havíamos preparado ali. “Não. É como respirar. Não dói”.


O outro soldado, a quem ouvi chamarem de Peçanha, então foi chamado pelo tenente deles.


Fiquei de prontidão naquela noite e próximo das vinte e duas horas, o soldado Peçanha se aproximou de mim e perguntou sobre os dias em que tentamos subir o monte. Contei rapidamente a ele o que havia acontecido e disse para ele não passar nem um pé para fora da área cercada pelo arame farpado. Ele então olhou para mim, respirou fundo e caminhou em direção à cerca. Eu quase o impedi, mas antes disso ele disse: “tenho ordens”. E ultrapassou. Da mesma forma que ocorreu antes os tiros e os morteiros vieram na direção do soldado, que sumiu na escuridão. Eu fiz o sinal da cruz encomendando a alma daquele homem, pois sabia que ele fora morto. Um tempo depois algo estranho aconteceu, novos tiros, novos morteiros. E então outra vez, uma hora mais tarde. Isso nunca havia ocorrido. E ninguém mais havia passado por mim ou pelos outros que estavam de guarda.


A noite toda foi de tiros intermitentes. Como se os tedescos estivessem atirando em fantasmas.


Na manhã seguinte um dos meus amigos me conta que o soldado Peçanha apareceu do nada, já perto da base, como se fosse feito de ar e levou um caderno com anotações para o capitão.


Ele conseguiu subir, viu a base inimiga e retornou ao pé da colina 97 praticamente ileso, sem ser visto. Ele era um Milagre.


Quando deu depois da hora do rancho fomos convocados para uma reunião. Aquilo era certamente um aviso de que, ou iríamos tentar tomar o cume novamente, ou que iríamos embora, nos juntando aos outros, que já deveriam ter passado de Camaiore.


Durante a passagem das instruções, o capitão Lívio disse que o soldado Peçanha havia adquirido informações importantes sobre a base inimiga. Agora sabíamos seus números, a posição exata das metralhadoras, dos 105, e principalmente, que havia sete demônios entre eles.


Um dos demônios tinha o pseudônimo de Das Sehen, a visão. Ele tinha a capacidade de saber onde estávamos. Era por isso que os tedescos eram tão implacáveis em impedir nosso avanço.


Não fugiríamos. Nós avançaríamos com a primeira luz da manhã do dia seguinte.


O soldado Peçanha subiu sozinho o monte novamente. Antes mesmo de ultrapassar a cerca eu observei ele desaparecer. Ele apenas ficou invisível. E nenhum tiro foi dado lá de cima. Aguardamos a noite toda, preparados para o ataque, o decisivo ataque.


E então, quando o primeiro raio de sol brilhou no horizonte uma série de explosões de granadas foram ouvidas no alto do monte, e seguido às explosões os gritos de comando do capitão Lívio e dos tenentes para que avançássemos! Com coragem e determinação nós iniciamos nossa subida. Não houve tiros inicialmente, não houve morteiros. Aquilo era novidade.


Eu e meu grupo avançamos o mais rápido que conseguimos até que em certo momento, a chuva de projéteis veio em nossa direção.


Eu ouvia o zumbido das balas muito perto de mim. Colei meu corpo contra uma árvore e torcia para nenhuma daquelas assassinas me acertar. Fechei meus olhos com tanta força que achei que jamais os abriria novamente. Eu não conseguia me mover. Apenas segurava meu fuzil e rezava para Nossa Senhora e minha mãe para me tirarem dali. Um 105 caiu a uns 30 metro de mim. Segurei mais forte o fuzil. Uma árvore grande caiu em cima de um abrigo onde estavam Fontana, Ribas e o Índio. O barulho foi grande e os gritos de meus companheiros batia fundo no meu coração. Foi então que a enorme árvore começou a se mover, ela subiu alto e foi arremessada na direção do cume da 97! Era o sargento Mathias, conhecido como Touro. Os pracinhas que o viram no treinamento diziam que ele podia levantar um tanque com uma única mão, eu nunca acreditei, apesar de já ter visto alguns Milagres durante a campanha, principalmente do lado dos tedescos.


Ver aquilo me deu mais coragem. Gritei alto e continuei a subida. O Touro vinha logo atrás, arremessando enormes pedras, que poderiam pesar toneladas, monte acima. Era uma visão única. Algo inconcebível e estava do nosso lado.


O outro sargento possuía uma capacidade estranha. Ele se dividia em três, que avançavam colina acima, ativaram e logo voltavam a ser um. Dessa forma ele conseguia avançar muito mais que os outros. Eu atirei na direção de um tedesco que estava próximo demônio que juntou Gervásio à árvore, o tedesco caiu. Mirei no demônio que já estava prestes a fazer uma nova vítima. Acertei em cheio, depois de quatro tentativas. Fiquei preocupado, pensei que ele também não cairia, assim como o outro não havia caído, mas ele caiu. Eu vinguei Gervásio.

Vi então um cabo ser arremessado para cima pela explosão de um 80. O corpo caiu para um lado,como uma boneca de retalhos, metade de suas tripas estavam para fora, mas o cabo ainda gritava de dor. O soldado que havia tomado uma bebida conosco a dois dias atrás chegou perto dele, colocou a mão sobre as feridas e uma luz fez as tripas voltarem para dentro da barriga e não mais que poucos segundos depois, ele estava com o fuzil em mãos, correndo em direção ao cume. Ele realmente era um milagre.


O mesmo soldado foi quem matou Das Sehen com um tiro certeiro na cabeça.


O tenente Isaías, do grupo dos Milagres mostrou a ira de Deus aos alemães. As chamas da purificação limparam o campo, ateando fogo no mesmo demônio que eu não consegui matar com tiros. O fogo divino fez o trabalho! O demônio tornou-se uma pira incandescente em meio aos gritos de desespero. Vê-lo queimar não me trouxe paz. Vê-los queimar apenas me trouxe pesadelos.


Passadas mais de seis horas, ouvimos os primeiros gritos de rendição dos tedescos. Nós vencemos.


Capitão Lívio, junto com outros dez homens, eu incluso, entrou na casa que servia como base dos alemães. Conseguimos capturar 12 soldados deles vivos, um oficial e principalmente, um demônio. Havia muita munição e comida no abrigo. E havia também uma caixa, onde um rapaz muito jovem, de traços leves e extremamente bonito, com um uniforme soviético e repleto de tatuagens jazia. O capitão ordenou que levássemos a caixa dali e iniciamos a descida, onde vi o sargento Touro caído, sem uma de suas pernas, o soldado Martins, com os braços amputados, e vários de nossos outros homens feridos. Tudo por causa daquela caixa. Por dois dias ainda procuramos, mas não encontramos o corpo no soldado Peçanha. Se ele ficava invisível mesmo, é provável que ainda esteja lá na colina 97, no monte lacrimoso.


De posse daquele caixão, retornamos a Pisa.


A guerra havia acabado para nós. Ao menos para os que haviam entrado na casa junto com o capitão. Nós recebemos medalhas e honras, mas assinamos documentos de jamais comentarmos sobre o ataque ao monte 97. Oficialmente nós nunca estivemos lá, nenhum de nossos homens jamais morreu naquele lugar.


Em 45 então os aliados chegaram a Berlim e os Estados Unidos bombardearam duas cidades japonesas com uma arma que levou ao final da guerra, definitivamente.


Fomos recebidos como heróis quando chegamos em casa. Pelo que um ou outro comentava, todos os pracinhas assinaram documentos que impedia de falarem sobre os Milagres que viram em ação.


Com o fim da guerra nunca mais houve outro Milagre, nunca mais houve outro demônio. Os jornais começaram a tratar aquelas audazes ações como obras de valentes combatentes comuns ou como alucinações ou estresse pós traumático.


Eu podia jurar que o fim dos Milagres ocorreu com a queda das bombas atômicas.


Casei-me com Lucinha, tive quatro filhos, e vivi uma vida confortável como vendedor de carros, ainda mais quando JK pavimentou o Brasil.


Foi então, que em uma tarde de julho de 1986, sob a cidade de São Paulo, ela surgiu. Uma figura jovial, vestida de branco e dourado, com uma capa que tremulava com o vento enquanto ela voava e enfrentava bandidos. Foi em 86 que vimos pela primeira vez Madame Esperança. E então, o que nós pracinhas, veteranos da segunda guerra mundial vimos como milagres, agora eram chamados de Super Heróis. Uma nova era se iniciava. Em meus ossos eu temia por uma nova guerra.




Das memórias de meu pai, Ernesto de Abreu e Silva.




domingo, 24 de maio de 2020

Chorei no dia do meu enterro

Chorei muito quando vi meu corpo deitado, sem vida, naquele caixão.

Eu me via através do véu que colocaram sobre meu rosto, numa tonalidade mórbida, de olhos cerrados e as mãos sobre o peito. Num terno azul marinho, em uma simulação de sono sem ruído. Saber que não havia ruídos enquanto eu estava deitado ali, é o que me fazia ter certeza de que eu estava morto. Meu sono jamais foi silencioso. Minha vida não foi breve, mas eu gostava muito dela. Por isso eu chorei. Entenda que não é um choro igual ao de quando eu respirava. Agora eu não preciso mais puxar o ar e nem meu peito dói com a dor da vida, nem meus olhos ficam marejados com as lágrimas quentes que queimam o rosto. Mortos não tem lágrimas. Eu tenho apenas o sofrimento, e a dor, e o sentimento, e o choro, de uma forma quase metafórica. Mas não há metáfora no que sinto. Tenho pleno sentimento de que fui antes da hora! Mas não pense que eu choro por mim morto apenas porque eu me apegava à vida como um vivo deve fazer, eu choro por mim porque escuto os choros dos que me acompanharam em vida, ouço seus prantos e sinto seus mais sinceros sentimentos. Fui uma pessoa querida, fui fiel aos meus ideais e às pessoas que estiveram comigo. Fui leal e, de certa forma, fui a tênue conexão entre grupos distintos, que agora nunca mais se falarão ou se lembrarão uns dos outros. Fui minha história e sofro com isso.

Mas como em vida, meus sentimentos e pensamentos passeiam entre estados diferentes de um momento para outro. Vejo pessoas ao lado de minha esquife que eu não gostaria que estivessem ali. Minha tristeza por estar morto, de me ver morto, é substituída rapidamente por uma raiva por ter que servir de espetáculo aos que não merecem!

A raiva logo se abranda, pois ignoro aquelas sombras e foco novamente em mim. Lembro de quase tudo o que fiz em vida. Lembro das coisas boas, das coisas ruins e dos momentos que fizeram tudo valer a pena. Lembro dos arrependimentos e das vezes que eu gostaria de mudar de história, mas não o fazia por medo, preguiça e, principalmente, porque eu reavaliava cada passo e o preço que uma mudança no passado, impactaria muitas alegrias de várias pessoas, inclusive as minhas. Então eu tentava apenas mudar o meu futuro, tentava ser melhor. Esse sentimento me trouxe um certo alívio, enquanto eu estava ali, ao lado do meu corpo, observando com atenção a face inchada e o meu nariz. Nunca tive a oportunidade real de me observar de fora. Eu era bem diferente da imagem que minha mente formava sobre mim. Vemos sempre o reflexo do espelho, mas jamais a imagem como um todo. O resto nós preenchemos com expectativas, medos, pedaços de imaginação e achismos sobre como as pessoas nos percebem.

Minha relação com Deus sempre foi muito repleta de discussões homéricas, do meu ponto de vista, claro. Tenho certeza de que qualquer filósofo menor ou sem muito talento teria soluções para tratar com o divino bem melhores do que as minhas, mas elas, essas discussões, eram únicas e exclusivamente minhas, não pertenciam a ninguém e só faziam sentido para mim. Agora eu ouvia as rezas, que me são tão conhecidas, e elas preenchem todo os espaço. Sei quem não rezará por mim, não que essas pessoas sejam ruins, não, apenas não rezarão, pois tem suas próprias relações complicadas com Deus. Cada um dos que rezam, transbordam energias diferentes. Choro ainda mais.

O representante do cemitério chega. É hora de levar o meu caixão para o túmulo. Passo os dedos fantasmagóricos em meu rosto de carne. Nem sei se tenho dedos mesmo ou se tudo não passa de uma farsa de minha mente. Não tenho mais um corpo e a mente não limita minha consciência, sou emoção, alegria e tristeza, mas de alguma forma que ainda não sei explicar, eu penso e tenho consciência de mim mesmo e das coisas ao meu redor.

Acompanho o cortejo ruidoso de choro até o local onde serei sepultado. Esse movimento falso alivia um pouco minha dor.

O carro para, as pessoas se reúnem ao redor do caixão mais uma vez, pela última vez.

Escuto mais palavras religiosas, não consigo tirar minha atenção de mim mesmo ali, será a última vez que me verei. Isso machuca. Escuto um pequeno grupo lembrar de coisas que fiz e fatos passados. Sorrio apesar do sofrimento. Finalmente o momento mais doloroso. A tampa é colocada sobre o caixão e nunca mais ninguém verá meu rosto. Se eu tivesse lágrimas, elas já teriam secado, pois nunca chorei tanto em minha própria vida, à exceção de um único dia, que jamais abandonou as marcas de minha alma. Sou enterrado. A terra cobre a caixa onde estou. Placas de concreto cobrem o resto. Acabou.

As pessoas começam a se despedir e partir.

Algumas delas jamais se verão novamente. Em pouco tempo eu mesmo serei apenas uma lembrança fugidia na mente da maioria delas. E em algumas será como se eu nunca tivesse existido. Para outras ficarei por mais tempo, sempre ali, num canto, como uma lembrança boa e distante. É assim a vida. É assim a morte.

Ouço então um pequeno grupo cantar uma música que eu era apaixonado enquanto vivo. Isso faz com que eu chore pela última vez, pois sempre amei música, ainda mais essa.

Vejo todos partirem. Olho ao redor, olho mais uma vez para minha sepultura. É hora de eu ir embora também.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Kimiko (Hasami girl)

Kimiko
Hasami girl

A pele branca e tatuada do corpo atlético e magro da jovem mulher de não mais de 20 anos, era marcada por pequenas cicatrizes de um acidente que levou, além de seus pais, metade de sua visão.

Nesses dias ela estava com metade da cabeça raspada, a pelugem pintada em uma coloração que ia de violeta ao amarelo. A parte cumprida do cabelo variava de cores, conforme um padrão pré-programado. Seu sorriso era cativante, bonito até, apesar de ligeiramente forçado para a esquerda, devido ao acidente e à reconstrução facial cibernética. Entretanto aquela imperfeição quase invisível dava uma característica charmosa à mulher. A perfeição das clínicas de estética não era seu padrão, apesar de claramente ter gostos extremamente populares entre as pessoas de sua idade.

Kimiko havia acabado de sair do último show da Arashi 37, sua atual banda favorita de J-pop. O espetáculo foi fantástico, com os movimentos de dança precisos de Non-Quantic Mira, a integrante androide do Arashi, a voz semi sintética e etérea da linda Mikasa S9, que substituiu maravilhosamente bem Mikka T2 e o acompanhamento sensual das Gyaru Tori, as trigêmeas mais famosas de Shin-Edo.

Rei, Sen e Hitomi, as amigas mais próximas de Kimiko, estavam estasiadas, elétricas e com os sentidos alterados. Elas marcaram de sair com uns rapazes da faculdade, que conheceram no show. Kimiko até gostaria de ir, conhecer gente nova, sentir corpos novos, apesar da imagem do rosto de Gin sempre assombrá-la e fazer sua boca salivar.

Contudo naquela noite ela teria de acompanhá-los apenas até o shopping. Durante o show, a energia acabou não apenas uma, mas duas vezes. Os Kuro já são comuns, mas dois em sequência não são tão esperados. Kimiko sabia que algo estava para acontecer, infelizmente.

Enquanto conversava com as amigas e os rapazes, acendeu um cigarro, fazendo seus olhos brilharem com o fogo, puxou fundo e sentiu o calor da fumaça em seus pulmões. Os efeitos energéticos das pastilhas de pentadextrina, também conhecidos como PD, já estavam passando. Consumiu outra pastilha, o brilho de seus olhos intensificou, dessa vez com os veios esverdeados fosforescentes característicos da droga. O mundo se tornou mais vivo.

Despediu-se dos amigos e se dirigiu a uma rua escura, perigosa. Ela não sentia medo do lugar, ela apenas esperava. Ela sabia.

Não demorou muito tempo. O ato de deixar de existir em um lugar e reaparecer em outro foi tudo o que sentiu. Ela fez uma careta para tudo aquilo. Odiava ser escrava do maldito Genocrata.

Foi transportada para um parque na periferia de Itabashi-ku, nos limites norte da cidade. Jogou ao chão o casado plástico que usava, à frente estava a maleta, abriu-a rapidamente, apreensiva, tirou a pouca roupa que usava e tratou de colocar o traje de combate sem mais demora. As tesouras foram para suas mãos tão rápidas e naturais que ela sequer pensou em pega-las. Seus reflexos estavam perfeitos e fluídos.

Olhou para o lado, buscava saber onde estariam os outros. Não havia mais ninguém.

Aguardou tensa e farmacologicamente atenta naquele parque escuro, sombrio e frio. Não arriscaria sair de perto de para onde havia sido transportada. Nada.

Voltou mais uma vez sua atenção à maleta. Um dispositivo de informação estava preso em seu interior. Não havia reparado nele antes devido a estar nervosa demais.

Pressionou levemente o botão e a mensagem se iniciou, com uma voz que ela não reconheceu:

“Não pense que não temos monitorado os surtos de energia do traje. Sua vida vale bem menos do que o equipamento. Você não passa de uma pequena engrenagem neste mecanismo complexo, Hasami.”

O suor gelado escorria de seu rosto. Nem mesmo as drogas estimulantes que consumiu mais cedo eram capazes de afastar o medo naquele momento. Ela sabia que sua vida estava no fim. Eles a executariam a qualquer momento. Esperou.

Nada.

Por uma hora permaneceu imóvel.

Seus pensamentos ficaram em suspenso até que a tensão começou a se dissipar.

“Não sou uma engrenagem, maldito, sou uma máquina de matar. Cortarei as cordas que me amarram a você e arrancarei sua cabeça como prêmio.”

Deixou-se cair ajoelhada, as lágrimas de nervosismo, medo, raiva, impotência, escorriam pelo seu olho real.

Respirou fundo, pegou suas roupas no chão. Ingeriu uma nova pastilha de PD, acendeu um cigarro e foi em direção de casa. Não iria tirar o traje. Eles que se virassem com a ideia.

Era hora de falar com Gin. Era hora de contra-atacar.

Kimiko 02

Kimiko 02

Durante a discussão com os seus associados, os Mattsu no Shinju (as seis pérolas), sobre a maldita determinação do Oyabun em relação ao homem que os extorquia, os ânimos ficaram agitados. Ran mostrava um distanciamento da paixão do momento, dizia que o homem não possuía nada contra eles, que eram ameaças infundadas. Esse ponto de vista não era compartilhado por Sasuke nem por Kimiko e mesmo eles também discordavam sobre o que deveria ser feito. Seiji tentava incessantemente conseguir informações sobre o alvo e, infelizmente, todos os seus contatos, acessos e invasões davam em conhecimento nulo. Aquilo frustrava os MS, acostumados a agir. Acostumados a matar.

Estavam perdidos, andando em círculos, cada um contra-argumentando com retóricas que não adicionavam. Foi então que os olhos de Sasuke buscaram o teto, e olhou de um lado para o outro, a sensação lhe era conhecida, ele sabia que em breve o escuro chegaria.

E então ele veio. O apagão, tão conhecido dos moradores de Shin-Edo, veio. As luzes de emergência se ativaram. Lá fora se ouvia o barulho forte de um vento que não deveria existir, mas que soprava violento sempre que a energia desaparecia.

Aquele instante de hesitação fez com que Kimiko observasse pela primeira vez o exato momento da desmaterialização de seu corpo. A raiva começou a se formar em sua alma. Ela e seus associados eram escravos de uma megacorporação, e eles foram transportados para o que ela chamava de Zonzero, a zona zero, o edifício onde tudo começou, e onde parecia ser uma intercessão importante naquele fluxo sobrenatural.

Foram levados para o alto do prédio, ao seu lado ela viu as Seis Pérolas e também Jin e Otawara. E equipe que a mídia chamava de Dākuhantā estava completa.

Vestiram os ciber trajes rapidamente, sabiam que era a diferença entre vida e morte.

Kimiko e Jin instintivamente levaram suas vistas aos mostradores dos trajes. Eles buscavam informações sobre quantos seriam os Yokai que deveriam enfrentar.

Seiji, Shinji, Ran, Sasuke e Otawara foram para a beirada do prédio, onde observaram uma enorme procissão no parque abaixo.

Os sensores indicavam muitos Yokai. Kimiko juntou-se aos outros e olhou para baixo. A fila da procissão seguia por um quarteirão. Os espíritos de vários tamanhos e formas cantavam e dançavam ao som de tambores sombrios. O vento castigava.

Kimiko entoou um cântico antigo e sutil enquanto movimentava ligeiramente seus dedos de forma ritualística. Quando passou a mão em frente ao rosto, na altura dos olhos, seu implante ocular começou a perceber as vibrações espectrais. Ela conseguia enxergar o mundo espiritual e confirmava que todos os membros da procissão eram yokai, mesmo os que estavam disfarçados de humanos.

Começou a tentar uma linha de ação junto dos aliados, mas quando percebeu, Shinji já havia pulado do alto do edifício, em direção ao solo, e começado sua matança. Não haveria conversa. Nunca havia conversa. Os outros o seguiram e com um dar de ombros despretensioso, Kimiko também saltou. Enquanto caia um sorriso se fez em seu rosto. O traje que cada um vestia lhes emprestava força e resistência sobre-humanas. Era viciante.

Quando chegou ao solo, Kimiko viu que Shinji não perdeu tempo, a lâmina mortal que ele portava retalhava com facilidade os espíritos. A velocidade com que ele executava suas manobras era desconcertante. Olhando para o lado viu os outros partirem para a ação. A precisão cirúrgica de Sasuke e Ran, enquanto disparavam em cabeças, que explodiam e tornavam a cena assustadora, a força que Seiji exercia ao atacar as criaturas, a ferocidade dos outros. Aquilo a motivou e ela jogou-se na multidão de yokai, e em sua dança graciosa e destruidora, retalhava os espíritos com suas tesouras de mono lâmina, com movimentos acrobáticos e finais.

A matança continuou até o momento em que um dos Yokai, um demoniozinho ágil e saltitante, começou a absorver os restos espirituais dos espíritos assassinados. O rio de restos metafísicos se movimentava em direção monstro. Ele começou a crescer, numa forma humanoide sem definição até que se consolidou num enorme Oni vermelho, com uma grande espada curvada de lâmina larga e se apoiando em uma perna, enquanto a outra ficava dobrada na altura do joelho.

Cinco, seis metros de Oni era o que viam à frente, com enormes olhos amarelados, chifres pontiagudos e presas afiadas. Deram dois passos para trás, numa tentativa de entenderem melhor seu adversário.

O Oni gritou enquanto empunhava a enorme lâmina! Sem perderem tempo, os Dākuhantā atacaram.

Kimiko e Ran derrubaram postes de iluminação e arrancaram os fios do chão para tentarem eletrocutar o demônio. Seiji retalhava com sua espada encantada. Otawara e Jin tentavam amarrar as pernas do Oni para derrubá-lo. Sasuke e Shikamaru atiravam na coisa com tudo o que tinham.

Nada parecia surtir efeito.

O monstro desferiu golpes contra os que estavam mais próximos a ele. Os ciber trajes impediram a obliteração imediata dos pequenos humanos. A força da criatura era imensa, mas os trajes absorviam a maior parte da energia cinética. Mesmo após ser sucessivamente arremessada contra o solo, Kimiko ainda resistia.

Por vários minutos de golpes e contra golpes o combate se desenrolou. Shinji e Seiji arremessaram um carro contra o Oni. O carro foi eletrocutado e explodiu, levando ferindo fortemente a criatura, que não parada, e começava a aproximar-se de uma área movimentada. Kimiko então saltou com as tesouras e atingiu o monstro nos olhos, rasgando fundo. Num salto de costas elevou-se ao ar e então partiu com a energia acumulada contra o chão. Usou toda a força do traje para arrebentar o asfalto e fazer o Oni cair no esgoto. Foi arrastada junto, pela criatura que segurou sua perna.

Seiji e Jin pularam em seguida, atingindo fundo o crânio do monstro, que caiu morto.

A vitória chegou.

Quando viram melhor, Kimiko estava caída sob o monstro, que começava a se desfazer em uma sombra escura.

Seu implante ocular estava fora do encaixe de seu crânio, seu braço direito em uma posição impossível. Os ferimentos internos eram muitos. Seiji fez uma análise rápida do traje e viu que a energia havia acabo quando Kimiko abriu o chão. Sasuke a pegou no colo e a levou para a clínica clandestina onde ele mesmo reparava os soldados de rua da facção Yakuza de seu pai.

Ao remover o traje da jovem moça, o braço direito se desprendeu, destroçado dentro da roupa. O corpo de kimiko estava no limite. Por muitas horas Sasuke tentou de todas as formas trazer a mulher à vida. Na ante sala, os outros esperavam.

As lágrimas secaram no rosto de Otawara e Jin se continha, fortalecido em um semblante estoico, mas seu coração ficava apertado à medida que o tempo passava e não havia respostas, apenas alguns gritos de raiva e frustração além das paredes, onde Sasuke trabalhava.

Seiji, Shinji, e Shikamaru pensavam sobre o futuro e as consequências daquele dia. Ran tentava trazer um pouco de paz aos corações, servindo chá.

Foi então que, depois de uma eternidade, a porta se abriu. Todos ficaram de pé e olharam em direção a Sasuke. Esperavam resultado. Sasuke estava ensanguentado, com um olhar cansado, seus braços estavam exaustos. O servo robô ao seu lado também estava banhado em sangue.

- Ela vai viver. Fiz o que eu pude. Infelizmente ela terá de se adequar à sua nova condição. Podem vê-la pelo vidro, mas apenas rapidamente.

Como na procissão dos yokai que haviam destruído a não mais de 24 horas, eles seguiram em fila. Pelo vidro viram Kimiko, com tubos em seu corpo, o suporte de vida mantendo seus órgãos funcionais, o implante ocular numa bacia suja ao lado da cama e o braço destruído sobre uma mesa.

- Ela vai viver. Isso é o que importa.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Na Caverna do Tempo


Na caverna do tempo - Um conto de fantasia e guerra.

As bombas dos Estados Unidos não pararam de cair sobre a região montanhosa afegã de Nangahar, na fronteira nordeste com o Paquistão. Najib não sabia dizer se havia se passado uma semana ou mais tempo, uma vez que ele e seus companheiros estavam aprisionados no interior dos túneis bem abaixo da superfície.

Não havia mais combustível para ativar o gerador, apenas algumas velas e duas lanternas. O rádio estava inutilizado, a água e a comida eram poucas e não havia explosivos suficientes para tentarem criar uma rota de fuga.

Há alguns dias, a data era 13 de abril de 2012 quando treze carros da patrulha ianque foram destruídos, e um helicóptero de combate caiu perante o poderio bélico dos crentes. Após a emboscada contra os americanos, a coisa tornou-se cáustica. A sanha vingativa tomou conta do inimigo, que despejou toneladas e mais toneladas de explosivos sobre as cabeças dos talibãs sob as montanhas. Os seis homens restantes estavam exaustos, famintos e sedentos.

Najib olhava os rostos cansados de seus companheiros, jogados na terra nua, com suas roupas em farrapos e um olhar distante, à meia luz de uma única vela. A cada novo estrondo, a chama dançava de um lado para o outro, tremulando incessantemente, hipnótica como os olhos de uma serpente. Najib lembrava-se de ter visto um encantador de serpentes nas ruas de seu vilarejo natal. O homem dominava a fera com os olhos e ela obedecia às suas ordens sem nunca questionar! Aquilo o fascinara por algum tempo, até que, no início de sua adolescência, ele começou a entender mais as palavras do clérigo local, e viu que o que o homem fazia era herético, e que ele deveria ser punido. Najib se lembrou de que ele mesmo pedira para punir o homem. Sentiu-se adulto naquele dia.

A luz da vela transformou-se de olhar de cobra em chama novamente, trazendo Najib de sua infância distante para o presente aterrador. Era impossível dormir com tantas explosões. Era impossível sair e lutar, pois lá fora os inimigos não estavam próximos, não lutavam limpo, eles estavam a quilômetros de distância com seus canhões de artilharia e a muitos metros de altura, com seus zangões radiocontrolados. Despejavam seu fogo mortal a todo momento. As explosões comiam centímetro a centímetro a proteção que as montanhas lhes davam. A cada novo impacto o teto tornava-se cada vez mais fino e perigoso.

E foi então, depois de tanto tempo em um medo contido e quase acolhedor, que o seu mundo de rochas desabou num baque abrupto, estrondoso e apocalíptico.

O teto veio abaixo de um instante para o outro, pondo fim ao refúgio dos soldados talibãs. Tudo o que sentia era dor, frio e escuridão, e, a seguir, apenas a escuridão cercada por um formigamento que se perdia aos poucos.

Quanto tempo ficou desacordado, Najib não tinha como saber. Num ato de clareza quase sobre-humana ele verificou se seu corpo estava intacto, depois viu que havia sangue em sua cabeça, mas que a dor não era proibitiva. Tateou no escuro absoluto por qualquer coisa que pudesse identificar e chegou a uma das lanternas. Ao iluminar seus arredores, viu que uma viga havia criado uma proteção e segurara a enorme rocha que certamente o teria esmagado. Não havia espaço para ficar de pé, mas ele conseguiria movimentar-se de quatro. Seus ouvidos ainda zumbiam, entretanto, ele escutava os lamentos de um ou outro de seus companheiros.

Najib inspirou o mais fundo possível e gritou os nomes de que ainda conseguia se lembrar. Nenhum deles respondeu, e aos poucos os murmúrios foram desaparecendo para sempre sob as pedras.

Quando o mais profundo silêncio envolveu o soldado sobrevivente, o desespero se apossou dele. Ele chorou por não ter morrido no desabamento, e sabia que sucumbiria perante a fome e a sede. Seus últimos momentos seriam de total desespero e solidão. Sua fé inabalável assegurou que suas preces se direcionassem a Deus. Ele sabia que sua alma estaria salva, pois sua vida havia sido de devoção e ação.

Foi assim que, no mais aterrador silêncio, uma nova explosão foi ouvida. O que deveria selar o destino do homem tornou-se sua salvação. Um novo abalo ocorreu e fez que pedras deslizassem próximas de Najib, abrindo uma saída lateral. O talibã pegou a lanterna e não hesitou em escapar daquela tumba.

Ele se arrastou por caminhos estreitos e rezou para que dessem em um bom lugar, e não apenas ficassem impossíveis de serem atravessados. Foi o que aconteceu. Ele chegou a um túnel mais amplo, onde conseguia ficar ereto. Andou rápido para longe de onde iniciara sua fuga, elevou o facho de luz para o teto, tentando ver se haveria uma possibilidade imediata de desabamento. Quando dava, corria, mas era perseguido pelo som das explosões. Amaldiçoava os infiéis, mas guardava forças para correr e manter-se lúcido.

Depois de algumas horas caminhando naquelas novas cavernas, levou a mão ao bolso interno de sua camisa, pegou um mínimo pedaço de pão e o comeu, depois lambeu a umidade das paredes para aliviar a sede que lhe cortava a garganta. Nesse momento, as baterias da lanterna finalmente se cansaram e o abandonaram na escuridão. Najib descansou, em uma mistura desigual de transe, cansaço e pura resignação.

Quando abriu os olhos novamente, esperava encontrar o breu do esquecimento ou a luz abençoada do paraíso prometido, contudo deparou-se com algo diferente, uma tênue luminosidade não muito distante, que atravessava uma fresta na parede. Najib levantou-se e foi em direção àquela luz. O assombro o apossou, pois, do outro lado da parede da caverna, havia uma instalação aparentemente militar. Suas mãos trabalharam rápido para desobstruir a entrada, por onde a luz trespassava. Viu uma única lâmpada elétrica pendendo do teto, balançando levemente de um lado para o outro, de uma forma que lembrava como a chama da vela dançava.

Naquele novo ambiente, o soldado viu uma máquina grande, toda de aço, com grandes válvulas. Uma única escotilha de vidro era perceptível. Em sua juventude, Najib fora alfabetizado e, além do árabe, também recebera aulas de russo e inglês, idiomas dos países que sempre tiveram interesse em sua pátria. Najib notou as letras cirílicas em alto-relevo no aço, junto com a estrela e o símbolo da foice e do martelo. As palavras eram traduzidas como “Câmara hiperbárica” e “Feito na União Soviética”. No chão, havia esqueletos com uniformes militares do exército vermelho, mortos há muito tempo. Aquele lugar era do período do controle soviético sobre o Afeganistão, uma relíquia de outras guerras.

Ao lado do corpo de um soldado soviético Najib viu alguns papéis: “o objeto gera uma energia capaz de desativar as armas inimigas, contudo ainda não conseguimos entendê-lo nem utilizá-lo de forma plena. Pode ser que tenha alguma relação com sua religião, mas não podemos arriscar colocar um deles aqui. Não sabemos o que aconteceria”.

Najib olhou através da escotilha. Lá havia algo diferente, um leve brilho que o seduziu. Ele abriu a câmara, que fez o característico som de ar penetrando nos orifícios. De dentro da máquina ele retirou uma antiga lâmpada a óleo, e riu de medo e surpresa. Pensar em uma lâmpada velha, de cobre, antiga, dentro de uma casamata soviética nas montanhas afegãs era surreal até mesmo para o homem que acabara de escapar da morte.

Angustiado com o objeto nas mãos, o talibã pegou a fralda de sua camisa suja e esfregou na lâmpada. Era um ato infantil. Uma brincadeira. Tudo baseado em histórias que sua mãe lhe contava quando era tão pequeno quanto conseguia se lembrar.

Ele atirou a lâmpada contra a parede quando dela saiu uma fumaça esverdeada. Najib se colocou contra a parede oposta e segurou uma pistola em sua mão. O impensável ocorreu. Ele finalmente estava louco, pois à sua frente havia um grande homem negro como a própria escuridão, de olhos de fogo, com o rosto repleto de cicatrizes rituais e uma postura altiva. Em seus antebraços havia braceletes longos e repletos de motivos decorativos, feitos em ouro e ornamentados com pedras preciosas.

O soldado agiu como deveria: levantou a pistola e direcionou-a à aparição sobrenatural. Disparou continuamente, até que não houvesse mais munição em sua arma. O ifrit negro estava ileso e olhou para o homem, suas feições demonstravam um pouco de descontentamento.

Najib estava trêmulo. Ele fora bombardeado por dias, sem descanso. Seus momentos de repouso foram quando o teto desabou ou quando o corpo se entregou, pouco tempo antes de entrar na sala, mas foi a visão daquela entidade que abalou seu coração. Em seu íntimo, no fundo de sua alma imortal, ele sabia que teria de decidir entre sua fé e o que acreditava que via. Aquilo o deixava próximo de um ataque nervoso. O homem negro saído de uma lâmpada sorriu ternamente para o talibã atormentado à sua frente.

Acalme-se, meu senhor. Você me libertou de minha prisão. Quero que saiba que estou aqui para ajudá-lo. A voz do ifrit apaziguou a mente de Najib, fazendo-o lembrar-se de seu avô, um homem sorridente, contador de histórias e conhecedor de muitas coisas no mundo. As lágrimas de desespero e dor deram lugar a uma lágrima de saudades.

Com uma lufada de vento fresco e reconfortante, uma nuvem esverdeada preencheu o laboratório. O ifrit caminhou em direção ao soldado e segurou suas mãos. A paisagem ao redor mudou. Najib via uma feira estranha e ao mesmo tempo familiar, pessoas vendiam os mais variados produtos e falavam uma língua que era árabe, mas também outra coisa, como se o sotaque e várias palavras ou ainda não existissem ou tivessem sido esquecidas.

O ifrit guiou Najib até o meio da praça, o sol da primavera era carinhoso e o vento trazia cheiros de especiarias de lugares distantes. No poço, no centro de tudo, o negro ofertou água ao soldado. Najib estava sedento. Bebeu. Satisfez-se. Uma mulher alta, com roupas coloridas e um véu quase aceitável lhe trouxe frutas, pão e um carneiro. Najib sorriu. Lavou as mãos, o rosto, olhou-se no espelho d’água, estava limpo e com roupas que lembravam as das pessoas daquele lugar, mas possuíam um porte militar. Comeu. Saciou-se. Depois de vários momentos de incertezas, atreveu-se a falar com o ifrit.

Obrigado por ter me tirado daquele lugar. Eu estaria morto se não fosse você.

Não te tirei de lá ainda. Estamos apenas em um meio lugar, onde você pode se alimentar, saciar sua sede e se vestir como um homem de posses. Daqui a pouco, retornaremos à mesma caverna onde estávamos e você deverá tomar uma decisão. Deverá fazer um desejo. Coma. Beba. Acalme-se. Descanse.

Você pode matar todos os meus inimigos e acabar com a guerra? Pode nos fazer vencer?

Não. Não posso matar nem devo forçar o amor ou a dor, mas posso fazer muitas maravilhas. Seu coração revela que não há outra coisa que queira mais em vida do que o fim desta guerra. Sua vontade é férrea e suas intenções são boas. Não julgarei seus motivos, pois sou um servo e não um juiz. Não posso matar, mas você pode.

O mercado primaveril deu lugar novamente à caverna. O ifrit estava em pé, próximo da lâmpada e Najib encontrava-se do outro lado do laboratório, bem-vestido, sem sede ou fome. Ele lembrou-se de sua cidade em ruínas, do barulho das explosões, dos soldados invadindo casas, do voo mortal dos zangões, de sua família destruída. Lembrou-se da raiva e do poder que o fuzil lhe emprestava. Lembrou-se das palavras do profeta. Seu coração endureceu.

Eu desejo, servo, ser a ferramenta que acabará com esta guerra. Eu desejo ser capaz de matar e acabar com todo esse sofrimento!

Que assim seja, mestre. Seja o instrumento da morte. Não deixe sobreviventes, senão nada mudará. Tudo tem um preço e a morte se paga com a morte.

Eu aceito.

Pela última vez, o laboratório foi tomado por uma fumaça esverdeada. A lâmpada apagou plenamente e o som distante das explosões do bombardeio cessou. Najib se viu em uma caverna bem decorada com belos tapetes. O calendário sobre a mesa de madeira mostrava o mês de agosto de 1993, mesma data dos jornais sobre uma escrivaninha. Ao seu lado, via homens armados, todos falavam com um forte sotaque saudita, estavam próximos, mas não o viam.

O talibã olhou adiante e reconheceu imediatamente um homem de aparência frágil e fala forte, um líder. Se ele não tivesse visto uma entidade sobrenatural pouco antes, não acreditaria que estava em frente a Osama Bin Laden. Ao lado de Bin Laden estava um outro homem, certamente americano, avermelhado, com uma pasta em mãos. Em inglês, os documentos mostravam o texto “Projeto Duas Torres”.

Najib sabia onde estava e sabia o que deveria fazer. Levou os dedos à arma em sua cintura. Ela estava totalmente municiada. Do outro lado da sala, o ifrit despediu-se com uma grande reverência e desapareceu nas areias do tempo e do deserto.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A Vergonha de Jonas - um conto de Mago o Despertar

<A algum tempo escrevi um conto para o concurso Eu, Criatura, da Devir.Era um concurso onde escrevíamos um conto, em primeira pessoa, sobre uma criatura baseada no mundo das trevas da White Wolf.

Fiquei em segundo lugar com o conto "A vergonha de Jonas", a história sobre um mago que teve problemas familiares e deve enfrentar seus demônios internos para tentar recuperar o tempo perdido.>

A Vergonha de Jonas

Um conto de Mago o Despertar

Finalmente estou próximo de casa. Meus braços estão cansados de carregar os três sacos de papel abarrotados de ingredientes importantes para o ritual de hoje. Eu ando pela calçada suja que sempre me surpreende com seus padrões de rachaduras e reverberações ocultas. A rua, como sempre, está repleta de mendigos, tomada pelos mesmos fedores com os quais já estou acostumado, mas morar aqui não é tão ruim quanto muitos imaginam: sempre há algo interessante para fazer ou observar. Tão logo chego à porta que dá para a escadaria que leva ao meu apartamento, um dos mendigos estende a mão em busca de uma ajuda. Vejo a influência direta dos espíritos sobre ele. Quem sabe, mais tarde, eu possa até tentar fazer algo, mas por enquanto lhe dou apenas uma moeda, para ver se ele me ignora.

Enquanto subo as escadas, recito o feitiço para destrancar a maldição que protege nosso lar e entro no apartamento. Vejo a sala bagunçada, como sempre. Há papéis posicionados de forma estrategicamente desordenada, e as almofadas estão todas juntas no sofá mais próximo do aparelho de televisão. Certamente um dos outros estava assistindo àquele filme horrível que passou hoje mais cedo. Ponho os sacos de lado, por sobre a mesa redonda de madeira, entre uma pilha de livros de filosofia e a estatueta de cobre que contém um fragmento abissal que eu e minha cabala prendemos para estudo posterior.

Eu olho ao redor para verificar se estou realmente sozinho. Realizo um feitiço simples, de localização, para tentar saber se há alguma entidade diferente no recinto. Não percebo nada além de um pequeno espírito rato que serve a Dekla, um de meus associados. O espírito, que Dekla chama de Artur, desliza intangível entre três grandes jarros de porcelana contendo águas do monte Sião, da serra da Canastra e da ilha de Páscoa.

A imagem de Shiva, que está na parede ao lado da estante com bonecos de vidro, me observa enquanto me movimento, mas é apenas um feitiço conjurado por Vima Maris, minha outra associada. Ela diz que aquilo é uma bela “expressão artística”… Eu discordo. O quadro com cachorros jogando sinuca, que fica bem ao lado, é um toque meu. Aquilo sim é arte.

Normalmente, um ritual como o que farei deveria ser executado junto com os outros membros de minha casa, mas várias coisas me impedem de fazê-lo com eles, principalmente a vergonha de expor meus segredos mais ocultos a meus amigos. Eu devo encarar a vergonha sozinho, devo enfrentá-la e, preferencialmente, tomá-la minha serva.

Sempre ouvi falar dos magos que praticavam a goécia, um conjunto de preceitos que permitem ao conjurador arcano externar e encarar seus demônios internos, seus pecados, seus erros, e esse tipo de coisa ruim que ninguém quer que os outros saibam. Muitos comentam que os magos que conseguem esse feito tomam-se mais eficazes, entretanto outros dizem que apenas conseguimos ver o que realmente deveria ficar escondido do mundo e de nós mesmos.

Só que não posso mais evitar. Depois de tanto tempo, precisa. rei enfrentar um erro que cometi no passado. Preciso enfrentar minha maior vergonha.

Descanso algum tempo para recuperar minhas forças e minha coragem. É hora de me preparar para o ritual. Tomo um banho demorado. Meu corpo precisa estar limpo externamente para não influenciar as ressonâncias místicas do sagrado local de trabalho arcano que temos em casa.

Raspo a cabeça até não haver nem sequer um pelo. Passo o óleo que comprei para o ritual. O odor de casca de árvore recém-cortada preenche o lugar. Visto a túnica vermelha previamente preparada com os símbolos de minha cabala e me dirijo ao Sacrário.

Desenho o pentagrama de Atlântida e todos os outros símbolos de que necessito no chão extremamente limpo daquele lugar sagrado. Eu sei que já o desenhei uma centena de vezes antes, entretanto busco fazê-lo com o maior capricho possível. Ponho uma representação de cada parte da vergonha que sinto em cada uma das pontas. Meu corpo treme de nervosismo. Posiciono-me ao centro e ergo os braços, com uma faca na mão direita e a máscara ritual na esquerda: a vontade e a passividade, o ato e o modo. Abro minha boca, seca de tamanha inquietude, e dela saem poderes. A suprema língua falada na antiga Atlântida percorre o ar e atinge o universo com a força de minha vontade, com o sopro de meu conhecimento, com o influxo de meu desejo. Eu rasgo o tecido da realidade com uma arrogância que sei que deverei rever em tempos que ainda virão. Meus olhos vislumbram os medos que sinto de mim mesmo, enquanto percorro lugares sombrios de minha mente, onde meus demônios se escondem. Grito meu falso nome, o nome que me esconde do universo e das vontades dos outros, e então sussurro meu nome verdadeiro. Uma isca para quem eu quero capturar e enfrentar. Eu digo a data do acontecido e percorro nulidades brutais de feitiços de proteção que nem mesmo eu sabia que havia conjurado. Vejo os padrões ressoarem como água suja e o fedor do medo do desconhecido. As cores que passeiam variam entre o absurdo e o retórico.

E então a vejo, face a face. O demônio possui as expressões de minha filha em metade de sua carranca e a semelhança a mim mesmo na outra metade, costuradas com pontos grosseiros por um cirurgião agourento. Seu corpo lembra roupas rasgadas, vestidos infantis e algodão velho, que se misturam a uma nuvem de mentiras amareladas em forma de pequenas raízes.

Eu conheço cada parte desse meu demônio de vergonha. Eu sei por que cada detalhe se mostra com essas formas, e é justamente por saber disso que não consigo olhar diretamente para minha própria criação.

Ela vem em minha direção, com seu movimento desconcertante, que me faz ter ânsia de vômito. A metade da face que se assemelha a Vanessa me encara de maneira acusadora. Baixo imediatamente o olhar. Ela grita com a voz esganiçada de uma menina que nem sequer conheci e pergunta aos berros o porquê do abandono. Ela me pergunta por que eu a abandonei ainda no início de sua vida. Ela cospe as verdades que rasgam minha cara, que começa a sangrar como se milhares de pequenas feridas explodissem de súbito. Eu não tenho resposta para dar, todavia estendo a mão e mostro minha intenção de chamá-la para o mundo onde vivo.

Ela pergunta por que faria isso, enquanto me xinga e me humilha com coisas que sei que são verdades. Eu respondo que não posso mais guardá-la dentro de mim, pois algo estranho aconteceu há poucos dias, e que, se eu mantiver a vergonha de ter abandonado uma filha, talvez ela não mais possa ser encontrada, nunca mais. Não com vida ou, pior ainda, não na forma que ela poderia assumir em todo o seu esplendor.

O demônio de minha vergonha gargalha de uma maneira que me faz desejar chorar. No mesmo instante, fico pálido, sinto frio, e é como se minha respiração desaparecesse. A sensação é a da proximidade da morte, mas é apenas meu demônio me tentando. Ele faz transbordar em mim um sofrimento agudo, um arrependimento, com uma agonia que lacera minha vontade. Ele gargalha e grita um sonoro “sim”, mostrando a mão rasgada e amarelada, segurando a minha com força.

Eu o puxo para a realidade e forneço as âncoras que o suportarão nesta existência.

Ao fim do ritual, quando volto a mim, minha vergonha está a minha frente, como um fantasma do passado. Sinto-me aliviado por saber que não a tenho mais em meu interior. Eu olho para ela e sorrio de forma traiçoeira, apesar do desgosto que sinto em saber que ela existe. Aponto o solo e ela se dá conta de que está contida em um círculo de restrição. O demônio de minha vergonha esbraveja suas ofensas enquanto o poder reescreve o mundo ao seu redor. Eu o aprisiono em um livro sem texto que fabriquei com minhas próprias mãos dias atrás. Ele me amaldiçoa ao tentar se libertar das amarras que o controlam. Eu fiz meu dever de casa e parece que funcionou.

Agora tenho coragem suficiente para ir atrás de Vanessa e tentar convencê-la a entrar para a ordem de seu pai. Um pai que ela nem sabe que existe.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Ordem em Progresso

Ordem em Progresso, um conto num futuro entre o distópico e o utópico
Fabio L. Ribeiro


Todos sabem como começou, com uma fagulha viva na pólvora seca.
Um grande estrondo social logo irrompeu.

A queda da antiga presidente da república, flagrada em atos contra a ordem social e o ninho de cobras que eram os parlamentares, o executivo e o judiciário que a destituíram, tornavam as ações seguintes totalmente obrigatórias.

Nas ruas o caos imperava. sangue, violência, baderna, passeatas, gente gritando palavras de “ordem”, revoltas, tudo isso era lugar-comum no caos daqueles dias.

A polícia não conseguia conter o alvoroço, muitos membros do efetivo estavam exaustos e machucados, haviam leis que os impediam de agir de forma mais esfuziante para dispersar aquela turba, eles estavam à beira do colapso.

Foi quando o governo estadual convocou o exército para executar a tarefa de colocar paz à guerra urbana, de trazer Ordem ao caos.

Naquele dia o líder nasceu. Ele mesmo entregou um aparelho celular para que o filmassem enquanto motivava suas tropas, enquanto passava a missão aos seus comandados, homens jovens e obedientes que tinham em seu coração a certeza de que o que viria era necessário. As palavras ecoaram forte nos ouvidos dos soldados, cabos, sargentos, tenentes e do major ali presentes. Nunca, em todas as suas vidas, eles ouviram palavras tão sinceras, tão destituídas de máscaras, tão diretas quanto aquelas. Inicialmente sentiram medo, vários quase tentaram impedir o líder de continuar, mas ele sempre apontava para a câmera que o filmava, mostrava que nada o impediria de assumir toda a responsabilidade, que tudo o que eles fizessem em nome da ordem, seria feio, seria brutal, mas ele arcaria com as consequências, o ônus recairia sobre quem os comandava e não sobre eles mesmos. Eles, pela primeira vez na vida, se sentiram realmente comandados em direção a algo grandioso.

Entre muitas palavras e curtas pausas ainda guardou-se algo do que foi dito naquela noite.

“Não tenham medo! Matem mesmo! Se estiver na rua fazendo baderna, é para matar! E se não matar, aleija! Ninguém aqui será punido por isso. Eu estou filmando esse discurso porque assumirei sozinho as consequências! Eu serei julgado, não vocês! Matem. Vagabundo tem que morrer! Eles são a escória da humanidade! Não tenham pena! Não importa se é mulher, criança ou velho é para atirar na cara, para bater até não sobrar nada. Neste dia seremos lembrados como heróis por muitos e vilões por alguns, mas faremos nosso dever, nossa obrigação como homens da pátria! Mataremos mais comunistas HOJE do que Stalin matou em toda sua vida! Vão e limpem as ruas! Não tenham pena! Bashar al-Assad será visto como pacifista após esta noite!”

O discurso foi categórico, forte e eficiente. O saldo foi de mais de mil mortos e um sem número de feridos gravemente.

Foi como ele previu, a mídia internacional foi inclemente, taxando-o dos piores nomes do nosso século, um novo Hitler, um novo Slobodan Milošević, mas ele não se importava com esses rótulos. Nenhum dos membros dessas mídias morava ou entendia realmente o Brasil. Nenhum deles sabia como era andar com medo pelas ruas. Nenhum deles via o desespero do trabalhador, que muitas vezes era impedido de chegar ao trabalho, seja por vandalismo, manifestações ou greves. O trabalhador não conseguia chegar ao seu serviço e ganhar seu pão, seu sustento, morria de fome por isso. “Deixem que falem, nós vivemos enquanto eles vociferam” eram suas palavras.

As pessoas não queriam um presidente, não queriam um governo, as pessoas precisavam de um líder e ele foi esse líder, justamente pelo sangue que ele assumiu o dever de derramar para pavimentar o futuro do Brasil.

Os historiadores dividem nossa história recente em ondas da revolução.

A primeira onda foi o massacre da avenida Paulista. Com o vídeo do discurso do líder circulando em alta definição pela internet. A ideia era demonizá-lo, mas o efeito foi o contrário, ele recebeu apoio irrestrito da maior parte da população, senão quase todos, incluindo políticos influentes na época, visionários de um país onde o caos precisava ser extirpado, mutilado de uma vez por todas para que a ordem e o progresso assumissem definitivamente seu lugar na história.

A segunda onda foram os momentos após o julgamento do líder, condenado a 80 anos de prisão e destituído de sua patente pelo tribunal, seria um mero civil. Foi no momento da leitura da pena, transmitida a todo o país em rede nacional, que as forças armadas, em uma manobra precisa, tomaram o controle das instituições. O julgamento foi imediatamente anulado e o líder marchou em uma parada militar pela mesma avenida paulista que viu a primeira onda, muitos protestos se seguiram, abafados com a força necessária.

A terceira onda era inevitável, o outorgamento da nova constituição, que foi seguida imediatamente com uma caçada aos agentes opositores do governo, uma releitura essencial dos anos sessenta e setenta do século XX. Após o outorgamento, por unanimidade do conselho de segurança do Brasil, foi aprovado o Ato Institucional número 5, em homenagem ao seu predecessor. O ato revogava direitos civis e transferia todo o poder às forças armadas definitivamente. Era um ato necessário para organizar o caos em que se encontrava o país. Foram criados os grandes filtros de conteúdo de internet, houve a volta da censura prévia, mas, excetuando os desvios à esquerda, quase nada era bloqueado ou proibido. O cidadão começava a ter a liberdade de acessar conteúdo de qualidade. Era um pequeno prenúncio da oitava onda.

A quarta onda foi uma batalha que preocupou o líder, pois ele sabia que seria necessária, mas geraria desconforto em grande parte dos homens que o apoiaram. Foi a revogação total do direito do cidadão comum de possuir armas. Muitos debatiam a validade daquele ato, se ele não estava em desacordo com o período em que se encontravam, se era realmente útil, se era viável, se o cidadão de bem tem o direito de se defender do mau externo, mas o líder convenceu o Conselho de Segurança do Brasil a aceitar a norma contra a posse de armas, após longas e duras reuniões. Logo em seguida foi assinado o decreto em que qualquer pessoa, que não fosse militar, que estivesse armado, era efetivamente um bandido e seria executado pelo governo, em nome da ordem.

A quinta onda foi a caçada impiedosa aos marginais que assolavam a nação. Não houve julgamentos e os justiçamentos pela população comum era proibida, pois a vida do indivíduo pertencia ao Estado. O homem de bem não deve sujar as mãos e deve crer que o Estado o protegerá. E assim era feito. Ao chamado de qualquer crime, as forças armadas iam até o local e não descansavam até encontrarem o meliante, que era executado em frente aos ofendidos. Houve problemas, houve alguns erros, mas eram números muito baixos em relação à quantidade de acertos e a efetiva resolução de problemas. Não havia apelação, não havia crime menor, não havia fuga, havia justiça. Em menos de quatro anos as taxas de criminalidade eram as menores já registradas.

A sexta onda foi a invasão de dissolução das favelas e comunidades precárias ao redor de todo o país, as forças armadas invadiam e removiam os marginais, não havia outra autoridade a quem recorrerem, os comunistas e membros dos direitos humanos, movimentos feministas ou qualquer organização à esquerda já não atrapalhavam mais o trabalho dos homens da lei. Claro que também houve muitos confrontos nesse momento, mas por alguma razão, talvez por já terem percebido como seria a nova ordem, foram bem menos frequentes do que se poderia imaginar. As mães entregavam seus filhos de duas maneiras para o Estado, ou para serem executados por seus crimes ou para irem para as escolas, no maior levante educacional que o país já teve. 99,9% das crianças em idade escolar estavam matriculadas e frequentavam o colégio.

A sétima onda deu-se nas grandes cidades. Os mendigos foram removidos das ruas e levados para o campo, onde estudavam e produziam alimentos em fazendas comunitárias, que vendiam seu excedente para das cidades e para as empresas de beneficiamento. Não havia mais vadios nas ruas, não havia o fedor que chamava mais fedor. Praticamente todos estavam empregados ou estudavam em busca de melhorias pessoais para conseguir um emprego. As cadeias foram sendo extintas aos poucos nesse período, com a sanitização dos presídios. Os condenados por crimes contra a vida, assaltos maiores, estupros, outros delitos correlatos e os reincidentes foram exterminados sumariamente, eliminados da sociedade como se extirpa um pedaço podre com uma faca quente. Os condenados por crimes menores foram soltos aos poucos, após uma breve ressocialização e buscaram não retornar à vida do crime, pois não haveria uma terceira chance, mesmo para crimes menores. Muitos estrangeiros mudaram do Brasil, fugindo da mão da ordem e da nova lei, o governo não os impediu, que lá fora tratassem desses marginais, seriam gastos menores com munição e cremação.

A oitava onda deu-se na cultura. Após a organização social era hora de organizar o futuro. Sanitizou-se a música, o teatro, a televisão, a internet. Ritmos e movimentos de esquerda foram extintos no país. A televisão era obrigada por lei a ter pelo menos 6 horas de sua programação, em horário viável e com telespectadores, com conteúdo cultural avançado, sancionado pelo órgão de cultura das forças armadas. O Brasil finalmente seria um país avançado nas áreas educacionais, sociais e culturais, seguindo os moldes do melhor que havia na Europa. Concertos abertos ao público, teatro, aulas de dança, música erudita, o crescimento das casas de samba, com grandes nomes surgindo no samba exaltação, escolas de línguas, ciências, tecnologias e ordem social em cada esquina. As religiões convivendo lado a lado, de maneira pacífica, um único canal, em alta definição, passava programas em horários variados, de várias religiões, para que todas tivessem chance de tocar os corações de seus fiéis. Ao contrário do que muitas mídias de países externos pensam, as execuções dos bandidos não foram feitas às escondidas, e sim televisionadas e transmitidas ao vivo pela NBR, com a devida censura e borrões, para não ofender estômagos mais fracos. Os nomes dos executados são públicos e encontram-se na página do Órgão de Controle de Social das Forças Armadas (www.ocs.fa.br/condenados/execucao/).

A nona onda foi em direção ao interior. Com a administração eficiente das forças armadas, os recursos advindos dos impostos eram empregados em prol das populações. Várias cidades foram remanejadas e organizadas em locais melhores, com empregos. As empresas multinacionais que agora vinham para um Brasil organizado e repleto de bons e instruídos trabalhadores, eram obrigadas por lei a se instalarem em locais mais distantes dos grandes centros, levando economia forte para agreste e áreas selvagens. As pequenas cidades ficaram limpas e com boas casas, como as vistas nas cidades de interior dos Estados Unidos e Europa. Eramos agora um país realmente civilizado. Sem a esquerda a atormentar os jovens, sem músicas ofensivas ao homem de bem, sem o medo do assaltante, sem passar a mão na cabeça de bandido.

Houve um crescimento vigoroso no IDH. Os aposentados eram bem cuidados. As pessoas ganharam as ruas pacificadas e ordeiras. Todos obedeciam às leis. Quem não obedecia era executado. O cidadão de bem venceu a guerra contra os comunistas e os marginais. A civilidade prevaleceu.

É sabido que atualmente não há mais mendigos nas ruas. Temos uma taxa de emprego de mais de 97%. A taxa de homicídios e a a menor já registrado em toda a história do Brasil, os aposentados vivem bem, o trabalhador sai de casa sem preocupações, pois paga suas contas e sabe que voltará sem incidentes para seu lar, com sua esposa a lhe esperar.

Segundo os números oficiais aproximadamente dois milhões de dissidentes morreram no período que compreendeu o início da primeira e o final da nona onda, pouco menos de 1% da população da época, um número que salvou 99% dos cidadãos de bem daquele caos que os devorava lentamente e que culminaria na extinção do Brasil como país.

Entretanto as cabeças dos países periféricos preocuparam-se além da conta e desnecessariamente com a escalada armamentista brasileira. Era óbvio que o crescimento em gastos bélicos era apenas reflexo do novo modelo de gestão, sendo utilizado única e exclusivamente para a manutenção do status quo do povo brasileiro. Com a retirada dos embaixadores da Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela e Chile do Brasil, iniciou-se o que já estão chamando de décima onda, e não deixaremos, por Deus, que esses periféricos controlem nossos caminhos e a paz interna que conseguimos com tanta dificuldade e sangue. Se a guerra é a trilha que devemos seguir para manter nossa estrutura social, então a guerra seguiremos com fervor pela Família, por Deus, pela Liberdade e pelo País!

Agora me sigam, alunos, que mostrarei os novos aviões de caça que chegaram há pouco tempo da Rússia para mostrarmos aos nossos vizinhos sul-americanos que somos o país mais rico e forte abaixo do trópico de câncer.